Destaque »

Araxá realiza 10ª Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente

14 de novembro de 2018 – 17:47 |

Foi realizada na última terça-feira, dia 13 de novembro, na Pousada Dona Beja, a  10ª Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Araxá. O evento reuniu representantes de entidades e …

Leia mais »
Esporte
Cultura
Turismo
Meio Ambiente
Responsabilidade social
Home » Cultura

“3 x 3D” levanta questões sobre o futuro do cinema e da tecnologia

Em São Paulo, onde participou da Mostra de 2013, o produtor português Rodrigo Areias disse que, apesar da crise econômica que assola o país, não foi difícil conseguir dinheiro da União Europeia para fazer “3 X 3D”. O filme foi feito no quadro das festividades que transformaram Guimarães, no norte de Portugal, na capital europeia da cultura em 2012. Na verdade, beneficiando-se do evento excepcional, Areias conseguiu verba para fazer dois filmes em Guimarães, um, o citado “3 X 3D”, indagação sobre o futuro do cinema e da tecnologia, e o outro, “Centro Histórico”, que se volta para o passado, como uma investigação histórica. O melhor episódio é “Vidros Partidos”, do espanhol Victor Erice, cineasta bissexto que, se fosse possível desmembrar sua pequena (na duração) obra-prima, bem poderia ter assinado o melhor filme do ano passado.

O projeto Guimarães – Capital Europeia da Cultura, constituído pelos dois filmes, começou em 2007 e foi sendo desenvolvido até 2013. Teve seu pico, compreensivelmente, em 2012. A ideia sempre extrapolara a realização dos filmes e estabelecer Guimarães como um polo de produção para Portugal. Era necessário, fundamental, que os realizadores revissem ligação com o espaço – a cidade. Mas nunca houve a condição determinante de que fossem só diretores portugueses. O projeto sempre esteve aberto para estrangeiros.

Manoel de Oliveira assina outros dos episódios de “Centro Histórico”, e o dele é bem bom, e humorado. Areias tentou conseguir que Oliveira fosse um dos autores de “3 X 3D”, mas o mestre centenário declinou. Seu argumento: se a terceira dimensão torna o filme mais realista, ele está fora. Um filme que imita a realidade não é arte, disse. Apesar do desinteresse de Oliveira, Areias conseguiu que outros três diretores fizessem os episódios de “3 X”. Cada episódio tem duração aproximada de 16 a 18 minutos. Chamam-se “Just in Time”, “3 Disasters” e “Cinesapiens”. Os autores – Peter Greenaway, Jean-Luc Godard e Edgar Pêra.

Você já deve ter ouvido o rumor de que nem o episódio de Godard salva “3 X 3D”. Os críticos da prestigiada revista “Film Comment” pensam diferente. “3 X 3D” encerrou a mostra Semana da Crítica, no Festival de Cannes do ano passado, e eles cravaram que os 18 minutos de Godard foram o top de linha do maior festival de cinema do mundo. Só Alain Guiraudie (“Um Estranho no Lago”), Abdellatif Kechiche (“Azul É a Cor Mais Quente”) e Jia Zhang-ke (“Um Gosto de Pecado”) chegaram perto, e assim mesmo ficaram atrás. É a sua chance de conferir.

O inglês Greenaway foi pioneiro na incorporação das novas tecnologias. Ele trabalhou muito com a alta definição – High Definition, HD -, utilizando câmeras que os japoneses ainda testavam nos anos 1980 e 90. Greenaway é, sempre foi, um autor enciclopédico. Tem viajado na obra de grandes artistas, de Shakespeare a Rembrandt. Em “Just in Time”, faz o que não deixa de ser uma investigação histórica e geográfica sobre Guimarães. Percorre com sua câmera a Praça da Oliveira, a igreja de N. S. de Guimarães e o claustro do Museu Alberto Sampaio.

Greenaway cria quadros que explora como texturas, movimentando seus atores dentro (e através) deles. Representam personagens que fizeram a história da cidade. O efeito é plástico e realçado por textos escritos sobre a tela, com letras de diferentes fontes. Mas ele foi acusado de poluição visual. Godard trabalha em outra direção, basicamente com material de arquivo. “3 Desastres” poderia muito bem ser um episódio da série Histoire(s) du Cinéma, que ele vem desenvolvendo nos últimos 20 anos (ou quase). Godard adverte – o digital será uma ditadura. E ele vê nisso um desastre, como outros que já afligiram o cinema (mas aos quais a mídia sobreviveu).

Para falar do futuro, Godard também viaja ao passado, à obra de dinossauros como John Ford, Fritz Lang e o próprio Nicholas Ray. Godard não apenas usa o 3D, como Hollywood tantas vezes faz para criar efeitos (e de preferência em blockbusters). Ele quer saber se o formato 3D é viável para viajar no intimismo. Godard fala sem parar, e sua voz é decisiva no efeito hipnótico que “3 Desastres” pode criar no cinéfilo. Se o autor francês investiga o meio (e a mensagem), Edgar Pêra interessa-se pelo público. Embora seu episódio seja o mais fraco do trio, o conceito não deixa de ser interessante – e se o cinema estiver a nos transformar? A mudar, com o 3D, nossa percepção do mundo? Godard é quem melhor responde à questão.