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Com grandes nomes do ciclismo brasileiro e internacional, começa em Araxá a CIMTB 2018

13 de Abril de 2018 – 11:15 |

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Na beira do rio do viver

Francelino Cardoso Junior

 

Geralmente, ocupo esta coluna para falar das coisas do campo, apesar de ser um viajante da vida, urbano. E, para ser ainda mais preciso, falar de casos das pescarias, uma vez que sou um pescador, em desuso. Sim, a gente que gosta das tralhas, das varas de pesca, das linhas e dos anzóis, nunca deixa de ser um pescador, apenas muda de poço. Como São Pedro que largou as redes nacanoa, para acompanhar Jesus e ser pescador de homens, lá pras bandas do Oriente.

Hoje, vou falar, como viajante urbano, de uma pescaria que fiz no rio da vida. Assim, como São Pedro, encontrei o meu Jesus na forma de uma esposa, de uma mulher, que também não sendo pescadora, pescou como o Mestre do Segundo Testamento do livro Sagrado;ajudou-me a pescar pessoas e construir uma família. Quero dizer da minha Íris, que, agora, deixou o nosso barco do viver, para se encontrar com o filho de Maria.De um encontro, que a distância nunca conseguirá apagar anossa paixão.

Dentre todas as minhas pescas, esta foi a mais importante em todo o decorrer de minha existência! Com a Íris, enchi as minhas redes com filhos, netos e até bisnetos, hoje“pequenos lambaris”, que se tornarão grandes peixes, um dia, pessoas de quem haveremos, ainda, de nos orgulhar,por sermos seus progenitores.

Sempre gostei do campo e, como tal, chamava você, “minha Doce”, carinhosamente, de “Dona Onça”; lembra-se? Vocêria,quase um gargalhar, aquele riso gostoso, que todos nós admirávamos;  a gente ficava no nosso poço, cevado de amor, continuando a pescar a nossa prole. E, por falar em sorriso, todos os que conviveram com você, por tanto tempo, nunca a encontraram sem aquela alegria constante  no rosto. Dava gosto vê-la, mesmo no rabo do fogão, com o avental todo impregnado de respingo de gordura, mas com a alegria nos lábios, como se a vida, às vezes mesmo difícil, fosse sempre de encontro à felicidade.

Este humor, você o levou para fora de casa. Sim, você o carregou para a sala de aula, contagiando as colegas de ensino e os seus incontáveis alunos com a mesma alegria, entremeada de saber. Eu me lembro, como me lembro! A gente, casados de novo,você que ainda não havia concluído o seu curso de normalista, se agarrou aos livros e sentou-se nos bancos da escola,na busca de um diploma. Depois, permaneceu na escola, como professora, onde deixou centenas de amizades, sempre feliz.

Como era gostoso, depois do almoço, vê-la, sentada na mesa da copa, corrigindo tarefas, envolta a uma pilha de cadernos! As crianças, ainda miúdas, correndo pela casa e tropeçando na gente. Depois, mais calmas, você, ainda na mesa, lhes ensinando o dever de casa. E, eu de volta à oficina, envolvidocom peças e com as “magrelas”, porém sempre com o pensamento em casa.Tempo bom, que guardei na minha história e que ficou somente na lembrança.

Hoje, querida Íris, quero apenas desabafar e poder falar com você, mais uma vez, com a voz do pensamento; tirar este nó da garganta, que me sufoca, e desembaçar as vistas, úmidas, mesmo distante dos seus olhos, porém perto do coração. Depois de escrever para você, acho que conseguirei me conciliar com o sono e me esquecer, pelo menos por algumas horas, que você se foi, para sempre, de nossas vidas. Quem sabe, sonhar com a nossa pescaria!

Na solidão de meu quarto, ainda nesta noite, ao findar deste dia que velamos seu corpo que se apartou da vida,lhe escrevo esta última declaração de amor. Fique junto a Deus, minha querida!