Destaque »

Fiscais da Vigilância Sanitária de 8 cidades participam de oficinas em Araxá

21 de maio de 2019 – 16:42 |

Os profissionais que trabalham com fiscalização no setor de Vigilância Sanitária na Microrregião do Planalto de Araxá se reuniram no último final dee smeana.  Nos encontros as equipes participaram de oficinas onde …

Leia mais »
Esporte
Cultura
Turismo
Meio Ambiente
Responsabilidade social
Home »

Carta para Maria

Carta para Maria

Cecília Beatriz Porfírio Pereira Rosa

Bom dia! Maria.

São exatamente 9 horas e 30 minutos do dia 16 de janeiro de 2018.  Que susto! Ver todos esses algarismos! Nunca imaginei, reler Machado de Assis, de manhã, outra vez após deixar o Colégio São Domingos, 1949!

Acho, ele tinha razão “é pormenorizar datas, ambiente, personagens, indumentárias, até o toque dos sinos… o leitor te seguirá até o final.”

Assim, hoje encontro tempo, empurro  para lá, sofrimentos, manhãs da vida, o repeteco diário não me abate, pego carona nas ondas cíclicas do pensamento, entro em sintonia com o cosmo, volto ao dia 16.07.1993. Dia da minha posse na Academia Araxaense de Letras! Inesquecível! Quem me saudou? Sofia Tannus Malki, de coração me chamava – Bia! Era prazeiroso ouvi-la. “ Bi-i-ia”.

Aquela ênfase da declamadora nata, não perdia o vigor, informar boas notícias era envaidecê-las. Fomos contemporâneas, ela sempre um livro aberto, vinha pela rua Capitão Izidro, nem piscava, aprendia, sempre boa aluna. O tempo andou!

Veja Maria, quando Leonardo, seu único filho nasceu, ela me ligou:

_ É a Bia? _ É! “ Já tenho alguém para me pajear!…”

_ Não será o contrário? Você é quem vai agora ter outra função _ Pajém! Babá de um Príncipe! Rimos e rimos, a vida inteira fomos amigas.  A literatura torna a alma mais próxima, o autor escreve para o mundo, tem uma mensagem sobrenatural_ unir todos os homens. Sofia era Mestra nessa Arte, “ Sofia escreve…” leia Maria, a sua Saudação – a Cecília Beatriz.

Araxá perdeu uma Cidadã, fiel a seus talentos, recebeu no aniversário da Academia Araxaense de Letras a 1º Comenda da Literatura da Academia Araxaense de Letras.

Choro por uma amiga – Sofia.

Abraços

Cecília Beatriz Porfírio Pereira Rosa

Cadeira 07 – Academia Araxaense de Letras.

Crônica reproduzida do Jornal Correio de Araxá –  escrita por Sofia Tannus

Cecília Beatriz

(palavras proferidas pela posse de CECÍLIA BEATRIZ PORFÍRIO PEREIRA ROSA na Academia Araxaense de Letras, em 16/07/93)

De repente, por um drible da vida, o poeta vira empresaria. Circunstancias imperiosas. Sem opção. Era preciso. Mas o poeta morre? Não creio. Drible algum o mata. Às vezes, adormece simplesmente. Faz a gestão fertilizadora do tempo de espera. E sabe aguardar o momento da luz. Nascer e renascer é preciso. Necessidade da alma respirar. Do mais fundo. Do mais vital. Sabe esperar. Os ponteiros da vida marcarão ainda a luz que se faz.

E vem a arrebentação. Força avassaladora das águas vivas de sua vocação. Vai de encontro às pedras ou às praias da vida. Quer forçar passagem. E por detrás, o horizonte se rasga em sol. É o poeta sacudido por sua poesia. Outras circunstâncias agora, vencidas as primeiras. circunstâncias especiais do sono letárgico de sua poesia, hauridafecundamente. E na arrebentação do dom (seria arrebatação) a força maior da expressividade: poetizando a saudade do tio falecido, escreve:

“Seu Vande: um bom dia para o Senhor, na pátria onde o tempo e o espaço perdem a sua medida, deixando-o livre para caminhar e viver.

Não há mais noite,

Não há mais solidão.

O dia amanheceu não vai mais embora.

Adeus insônia, a luz do escuro já não o incomoda.

Para o senhor, a claridade do sempre.

Para nós, houve um tumulto entre os astros.”

O poeta trabalha neste poema, o tempo e o espaço em cenários transcendentes e a dor da morte, o impacto traumatizante tem a bonita metáfora de “tumulto entre os astros.”

Momentos de beleza é também a autoanálise que faz num tom de ironia e rasgo de sinceridade:

“Nas trilhas do mundo

Os homens passam por mim.

Eu passei por eles.

Uns, eu nem vi.

Outros, eu fingi não ver.

Alguns, eu esqueci que vi.”

E neste embate de sobrevivência da alma poética, a dona-de-casa encontrava pouco tempo: oito filhos, esposo, casa, problemas econômicos, mudanças, colégios, bolsas de estudo… Se a empresária sobrevive, o poeta incomoda. Se o poeta floresce, a empresária é solicitada. E a mãe? Ah!… a mãe! Essa, abarcava todas as almas de empresárias e de poetas do mundo todo. Essa é absoluta. E tão forte, que a mãe e o poeta plenificaram-se em coexistência, no poema, escrito em 1967, intitulado “HÁ MAIS”.

Pertencente a uma família de 16 irmãos, canta a prole da mãe, também Cecília – Cecília Porfirio de Azevedo Borges, num poema com a feliz escolha do título: “Gênese”.

” Gerar um filho! A carne que a gente constrói guarda um segredo”.

A expressividade de Cecília Beatriz é tanta que ate em carta, sem nenhuma pretensão de publicação, flui poeticamente. Em carta enviada para a Alemanha, diz:

“Sou cronista do afeto e do tempo, é o meu mundo paralelo.

…Entro e saio na morada da sensibilidade com um lápis e um papel…

O dom é como as parreiras que sobem os morros, às margens do Rio Reno, dando uvas. Frutos! Primícias da terra para o homem universal de todos os tempos”.

E por falar em figuras de linguagem, vejam e sintam a beleza da prosopopeia em que se da a vida, ao inanimado, trabalhada por Cecília Beatriz em “Imóveis à venda”. Ela se refere ao casarão da Avenida Antônio Carlos, onde viverão seus antecedentes, defendendo a bandeira da criação da Casa de Música “Elias Porfírio de Azevedo”.

” Ela (a casa) tem o dó-ré-mi-fa-sol-la-si-dó subindo pelas paredes, levantando as telhas, atravessando as portas, correndo pelas janelas, acelerando o ar, caindo como força de vida na Avenida, cintilando os iluminados, emocionando a luz!”

Agora, Cecília Beatriz, investida hoje pela Academia Araxaense de Letras, cai-lhe sobre os ombros, a grande responsabilidade de cultivar muitos mais dedicadamente, exclusivamente o dom inato de poetizar. É divida para com Araxá. É condição primordial para a sua felicidade, compromisso de vida, compromisso forte de se sentir bem consigo mesma.

Parabéns! Um abraço todo tecido em fã ardorosa.”