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Representantes da OAB se reúnem com Vereadores na Câmara

19 de junho de 2018 – 0:41 |

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Carta para Maria

Carta para Maria

Cecília Beatriz Porfírio Pereira Rosa

Bom dia! Maria.

São exatamente 9 horas e 30 minutos do dia 16 de janeiro de 2018.  Que susto! Ver todos esses algarismos! Nunca imaginei, reler Machado de Assis, de manhã, outra vez após deixar o Colégio São Domingos, 1949!

Acho, ele tinha razão “é pormenorizar datas, ambiente, personagens, indumentárias, até o toque dos sinos… o leitor te seguirá até o final.”

Assim, hoje encontro tempo, empurro  para lá, sofrimentos, manhãs da vida, o repeteco diário não me abate, pego carona nas ondas cíclicas do pensamento, entro em sintonia com o cosmo, volto ao dia 16.07.1993. Dia da minha posse na Academia Araxaense de Letras! Inesquecível! Quem me saudou? Sofia Tannus Malki, de coração me chamava – Bia! Era prazeiroso ouvi-la. “ Bi-i-ia”.

Aquela ênfase da declamadora nata, não perdia o vigor, informar boas notícias era envaidecê-las. Fomos contemporâneas, ela sempre um livro aberto, vinha pela rua Capitão Izidro, nem piscava, aprendia, sempre boa aluna. O tempo andou!

Veja Maria, quando Leonardo, seu único filho nasceu, ela me ligou:

_ É a Bia? _ É! “ Já tenho alguém para me pajear!…”

_ Não será o contrário? Você é quem vai agora ter outra função _ Pajém! Babá de um Príncipe! Rimos e rimos, a vida inteira fomos amigas.  A literatura torna a alma mais próxima, o autor escreve para o mundo, tem uma mensagem sobrenatural_ unir todos os homens. Sofia era Mestra nessa Arte, “ Sofia escreve…” leia Maria, a sua Saudação – a Cecília Beatriz.

Araxá perdeu uma Cidadã, fiel a seus talentos, recebeu no aniversário da Academia Araxaense de Letras a 1º Comenda da Literatura da Academia Araxaense de Letras.

Choro por uma amiga – Sofia.

Abraços

Cecília Beatriz Porfírio Pereira Rosa

Cadeira 07 – Academia Araxaense de Letras.

Crônica reproduzida do Jornal Correio de Araxá –  escrita por Sofia Tannus

Cecília Beatriz

(palavras proferidas pela posse de CECÍLIA BEATRIZ PORFÍRIO PEREIRA ROSA na Academia Araxaense de Letras, em 16/07/93)

De repente, por um drible da vida, o poeta vira empresaria. Circunstancias imperiosas. Sem opção. Era preciso. Mas o poeta morre? Não creio. Drible algum o mata. Às vezes, adormece simplesmente. Faz a gestão fertilizadora do tempo de espera. E sabe aguardar o momento da luz. Nascer e renascer é preciso. Necessidade da alma respirar. Do mais fundo. Do mais vital. Sabe esperar. Os ponteiros da vida marcarão ainda a luz que se faz.

E vem a arrebentação. Força avassaladora das águas vivas de sua vocação. Vai de encontro às pedras ou às praias da vida. Quer forçar passagem. E por detrás, o horizonte se rasga em sol. É o poeta sacudido por sua poesia. Outras circunstâncias agora, vencidas as primeiras. circunstâncias especiais do sono letárgico de sua poesia, hauridafecundamente. E na arrebentação do dom (seria arrebatação) a força maior da expressividade: poetizando a saudade do tio falecido, escreve:

“Seu Vande: um bom dia para o Senhor, na pátria onde o tempo e o espaço perdem a sua medida, deixando-o livre para caminhar e viver.

Não há mais noite,

Não há mais solidão.

O dia amanheceu não vai mais embora.

Adeus insônia, a luz do escuro já não o incomoda.

Para o senhor, a claridade do sempre.

Para nós, houve um tumulto entre os astros.”

O poeta trabalha neste poema, o tempo e o espaço em cenários transcendentes e a dor da morte, o impacto traumatizante tem a bonita metáfora de “tumulto entre os astros.”

Momentos de beleza é também a autoanálise que faz num tom de ironia e rasgo de sinceridade:

“Nas trilhas do mundo

Os homens passam por mim.

Eu passei por eles.

Uns, eu nem vi.

Outros, eu fingi não ver.

Alguns, eu esqueci que vi.”

E neste embate de sobrevivência da alma poética, a dona-de-casa encontrava pouco tempo: oito filhos, esposo, casa, problemas econômicos, mudanças, colégios, bolsas de estudo… Se a empresária sobrevive, o poeta incomoda. Se o poeta floresce, a empresária é solicitada. E a mãe? Ah!… a mãe! Essa, abarcava todas as almas de empresárias e de poetas do mundo todo. Essa é absoluta. E tão forte, que a mãe e o poeta plenificaram-se em coexistência, no poema, escrito em 1967, intitulado “HÁ MAIS”.

Pertencente a uma família de 16 irmãos, canta a prole da mãe, também Cecília – Cecília Porfirio de Azevedo Borges, num poema com a feliz escolha do título: “Gênese”.

” Gerar um filho! A carne que a gente constrói guarda um segredo”.

A expressividade de Cecília Beatriz é tanta que ate em carta, sem nenhuma pretensão de publicação, flui poeticamente. Em carta enviada para a Alemanha, diz:

“Sou cronista do afeto e do tempo, é o meu mundo paralelo.

…Entro e saio na morada da sensibilidade com um lápis e um papel…

O dom é como as parreiras que sobem os morros, às margens do Rio Reno, dando uvas. Frutos! Primícias da terra para o homem universal de todos os tempos”.

E por falar em figuras de linguagem, vejam e sintam a beleza da prosopopeia em que se da a vida, ao inanimado, trabalhada por Cecília Beatriz em “Imóveis à venda”. Ela se refere ao casarão da Avenida Antônio Carlos, onde viverão seus antecedentes, defendendo a bandeira da criação da Casa de Música “Elias Porfírio de Azevedo”.

” Ela (a casa) tem o dó-ré-mi-fa-sol-la-si-dó subindo pelas paredes, levantando as telhas, atravessando as portas, correndo pelas janelas, acelerando o ar, caindo como força de vida na Avenida, cintilando os iluminados, emocionando a luz!”

Agora, Cecília Beatriz, investida hoje pela Academia Araxaense de Letras, cai-lhe sobre os ombros, a grande responsabilidade de cultivar muitos mais dedicadamente, exclusivamente o dom inato de poetizar. É divida para com Araxá. É condição primordial para a sua felicidade, compromisso de vida, compromisso forte de se sentir bem consigo mesma.

Parabéns! Um abraço todo tecido em fã ardorosa.”